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DESENVOLVIMENTO DA PROBLEMÁTICA

Globalização do consumo de vinhos

A produção e o consumo de vinhos possuem uma longínqua importância histórica e religiosa que remonta a diversos períodos da humanidade. É difícil imaginar como um produto que está relacionado com o nascimento das primeiras civilizações - com a cultura exclusiva dos povos, das regiões ou até mesmo de aldeias – tem hoje a capacidade de percorrer o mundo e estar presente no consumo de grande parte da população mundial.

Desconhece-se com exatidão o local da primeira produção de vinho, mas os dados históricos disponíveis apontam para que tenha sido no território da Geórgia, no Cáucaso, que tenham sido cultivadas as primeiras uvas Vitis Vinifera Sylvestris, no séc. VI a.C.. A região do Cáucaso é referida como a que acolheu os primeiros vinhos produzidos pela humanidade. A utilização de jarros de barro permitiu fazer o transporte do vinho da região de origem para outras, dando assim início às primeiras trocas comerciais em torno deste produto. De referir que o vinho é, desde sempre, um produto muito valorizado e extremamente importante nas trocas comerciais, o que desde logo nos permite compreender o valor que uma garrafa de vinho pode granjear.

Com o cultivo da vinha a tornar-se bastante relevante para as civilizações do Cáucaso, Egipto e Grécia por volta de 300.000 a.C, começou a verificar-se, na antiga civilização Egípcia, a produção de vinhos tintos em vinhas próximas do rio Nilo, o que facilitava também o seu transporte de barco para outras regiões.

Mas é na antiga Grécia que acontece o primeiro salto qualitativo da história do vinho. A primeira denominação de origem de um vinho acontece nesta altura, com a marcação nas ânforas que transportavam o vinho das iniciais das localidades gregas onde este era produzido. Surge assim, pela primeira vez na história do vinho, a proteção da sua origem. A cultura da vinha na antiga Grécia adquiriu tamanha importância que na mitologia grega existe Dionísio, o Deus do Vinho.

Com o declínio da antiga Grécia e a progressiva expansão do Império Romano, o cultivo da vinha alastrou-se a territórios que ainda não a praticavam. É com a civilização romana que o consumo de vinho ganha um importante impulso. Como parte da dieta romana, por todos os territórios onde as legiões romanas tiveram influência, deixaram as marcas da cultura da vinha junto dos agricultores locais, contribuindo para as castas de diferentes pontos do império viajassem para locais onde até então se desconhecia a produção de vinho. A importância do vinho no Império Romano foi tão marcante que deu lugar à existência mitológica de Baco, o Deus do Vinho.

Não se sabe com exatidão em que ano foi criada a técnica de transporte de vinho em barris de madeira, pelo povo do norte da Europa, os gauleses, nem em que ano foi descoberta a técnica de engarrafar vinho em garrafas de vidro, desenvolvida pelo povo Sírio. Contudo, as técnicas de transporte de vinho foram-se, naturalmente, adaptando às evoluções históricas. O Império Romano transportou vinhos pelo mar Mediterrâneo, em embalagens distintas, e em toda a zona onde intervieram foi implementada a cultura da vinha e a enologia.

A Igreja Católica Romana teve também um enorme peso no desenvolvimento da viticultura e da enologia, por incentivar o cultivo da vinha junto a cada igreja ou paróquia para que as missas pudessem ser celebradas com vinho. Este símbolo de crença fez com que ainda hoje as cerimónias religiosas sejam acompanhadas de uma taça de vinho.

De salientar que durante a idade média, o acompanhamento da viticultura e técnicas de enologia por parte dos crentes na religião cristã foi de extrema importância. Por todo o continente Europeu, os monges das diferentes ordens religiosas foram os principais responsáveis pela plantação de vinhas dando origem a algumas das regiões vitícolas de hoje. As regiões vitícolas mais antigas do mundo, independentemente do seu país de origem, estão ligadas à história da Igreja Católica, onde a viticultura sempre foi vista como uma arte e a produção de vinho como um segredo de saber fazer milenar.

É neste altura, idade média, que em Portugal é criada a primeira região vitivinícola demarcada no mundo, a região do Douro, todavia este processo de delimitação das regiões aconteceu sucessivamente por toda a Europa, num esforço de proteger a qualidade e identidade dos vinhos perante outros de inferior qualidade.

A história do vinho teve sempre uma relação estreita com a plantação de vinhas e a produção de vinho em diferentes locais, sendo particularmente marcante o início do século XV, com as expedições marítimas dos navegadores europeus, em particular dos portugueses e espanhóis, que na descoberta de novos continentes criaram as primeiras rotas marítimas de ligação do continente europeu a outros continentes.

Com o início das trocas comerciais entre estes novos territórios e a Europa, instala-se o cultivo da vinha no chamado “novo mundo”, em particular no continente da América Latina e África. A esta época reportam as primeiras grandes viagens de exportação de vinho. As trocas comerciais entre os diferentes continentes ganham volume, o vinho é reconhecido como produto capaz de viajar por diferentes continentes, mas igualmente como um produto de qualidade que integra a dieta alimentar da maioria das classes económicas no continente europeu, bem como dos continentes em que os europeus estavam presentes. Lembro que as grandes regiões de vinho, hoje mundialmente conhecidas, estão historicamente marcadas pelas suas exportações, Douro, Madeira, Bordéus, Champanhe, entre outras muitas vezes com destino a Inglaterra.

No século XIX, a praga Phylloxera assolou o continente europeu provocando um forte decréscimo da área total de vinhas, colocando inclusive em causa a produção de vinho de autossustentabilidade a nível europeu. Perante a escassez de vinho, o continente europeu começou a importar vinho de territórios com os quais já tinha relações comerciais fortes, como forma de repor o consumo no mercado, revelando ser um marco histórico.

É neste contexto que os países conhecidos como o “novo mundo vitivinícola” ganham importância no panorama mundial de comércio e consumo de vinhos, designadamente a África do Sul, a Argentina, a Austrália, o Brasil, o Chile, os Estados Unidos da América, a Nova Zelândia e também a China, embora neste último, somente alguns séculos depois se tenha iniciado a produção de vinhos obtidos da fermentação exclusiva de uvas. Este grupo de países apresentam uma nova filosofia na produção de vinhos, contrária à apresentada pelo continente europeu, conhecido como o “velho mundo vitivinícola”.

A globalização do consumo de vinhos é sem dúvida um tema que não é exclusivo da atualidade. Desde o início da sua história que o vinho está associado às trocas comerciais com outros povos e às longas travessias de barcos e caravelas.

Na atual conjuntura olhamos para a exportação de vinho como uma forma de lhe acrescentar valor e de sinalizar a sua presença e identidade junto de diversos públicos. Sem dúvida que o encontro de novos consumidores que apreciam o estilo de vinho português valoriza as nossas marcas, porém, porquê pensar em exportar se a nossa produção é pequena? Perante este facto, é crucial traçar um plano estratégico, adaptado à realidade de cada adega, que defina os parâmetros de comercialização dos seus produtos.

Um erro comum em Portugal é pensar-se que somente os mercados de exportação aportam valor para os produtos. O mercado nacional apresenta diversas oportunidades de exploração e deve ser olhado pelas adegas e agentes comerciais portugueses como um mercado com forte potencial.

Existe ainda no mercado português um excesso de protecionismo dos vinhos nacionais. Do meu ponto de vista, era importante equacionar a abertura do mercado nacional ao consumidor, dando-lhe a oportunidade de descobrir e conhecer vinhos produzidos em outros países. Ao conhecer vinhos de outros países, mais facilmente o consumidor português irá entender o valor dos vinhos nacionais.

A entrada dos vinhos portugueses no comércio global de vinhos deve ser muito bem avaliada antes de fazer parte da estratégia empresarial. É importante relembrar que existe uma forte ligação cultural entre o consumidor e o vinho que este consome. A globalização do consumo de vinhos possibilitou a abertura de vários mercados a vinhos de diferentes origens e com distintos perfis. Numa lógica global, esta aproximação de mercados internacionais gera competitividade pois vários países irão competir por uma parte do mesmo mercado.

Levanta-se a questão:

como é que um consumidor Sul Coreano, no seu mercado local, garrafeira ou outro espaço de comercialização de vinhos, escolhe a garrafa que pretende comprar, tendo vinhos de todo o mundo e regiões que multiplicam as opções de escolha aumentando a dificuldade na seleção?

Como fará o consumidor a escolha sem ter degustado os vinhos para que formasse opinião sobre o produto que mais gosta?

É desta forma que o mercado dos vinhos funciona a nível global; ao mesmo tempo que possibilita o acesso a vinhos de todo o mundo, educa também um consumidor mais exigente.

Hoje, quando se pensa em exportar e internacionalizar vinho, tem de se considerar sempre a necessidade de uma forte estratégia de posicionamento de mercado, pensando na valorização das marcas através de uma boa estratégia de marketing e comunicação.

Como descrevi anteriormente, a história do vinho é marcada por trocas comerciais em vários países, com o vinho a evoluir a par e passo com o desenvolvimento das civilizações. O comércio de vinho esteve sempre ligado a uma grande valorização deste produto - quer por razões de ordem cultural religiosa ou somente de crença -, e o atual mercado mundial de vinhos deve-se a esta capacidade de evolução. Porém, as circunstâncias culturais, económicas e sociais dos últimos anos, próprias do evoluir das sociedades, provocaram uma mudança de padrão na forma como é feita a seleção de um vinho pelo consumidor, na percepção do valor do produto, e ainda na influência que algumas opiniões podem ter na sua escolha.

O posicionamento dos nossos produtos em mercados de todos os continentes já é uma realidade. Estão criadas as condições técnicas e logísticas que permitem ao nosso vinho posicionar-se nos mercados dos cinco continentes e com preços adaptados a cada um desses mercados. Esta é a realidade existente e que se afigura muito interessante para o comércio de vinhos.

Durante o mestrado do OIV MSc observei que muitas marcas de vinhos presentes em todo o mundo tinham um posicionamento, imagem e estratégias de comunicação diferentes para cada mercado. Ou seja, o mesmo vinho adaptava-se ao mercado em causa. Este é repto da globalização do negócio de vinhos: adaptar-se às necessidades de cada mercado.

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