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Antecedendo o assunto

Tesouro ampelográfico

A enologia é a ciência que estuda tudo o que está relacionado com a produção e conservação do vinho, desdeo plantio, à escolha dosolo, às castas, à climatização, à vindima,à produção, aoenvelhecimento, ao engarrafamento e à venda.

Começarei por explicar o que entendo ser um Enólogo, profissão nem sempre clara para a maioria das pessoas.

Um Enólogo é um profissional que detém o diploma de enologia, sendo o seu título o suficiente para descrever as suas responsabilidades e qualidades. É normalmente o responsável por todas as decisões em torno da produção do vinho, desde a vinha ao produto final. O Enólogo tem de saber gerir equipas de trabalho, conhecer a origem do vinho e respetivos processos físico-químicos desde a vinha à garrafa, bem como coordenar todos os trabalhos e operações efetuadas durante a produção de vinho.

A sua experiência é essencial para a qualidade do trabalho, pois a observação do terroir - palavra francesa que representa um número complexo de fatores que influenciam a biologia da videira determinando a qualidade final da uva e do vinho resultante - e o seu conhecimento são essenciais para entender e potenciar a expressão da matéria-prima e desta forma produzir um produto de excelência.

A responsabilidade do Enólogo é ainda maior quando a este compete a elaboração das marcas de vinho. Ele é assim, também, uma imagem de marca, se essa for a opção estratégica de marketing da empresa para quem trabalha.

Passo agora a descrever o que de mais precioso na área da enologia existe em Portugal, as castas.

Analisando o relatório da OIV de 2015 sobre a área total de vinhas plantadas a nível mundial, estima-se que existam 7,573 Mha (fonte OIV) de vinhas plantadas em todo o mundo, assim como um pequeno decréscimo na produção de vinho de 10%. Existe também um pequeno decréscimo de área de vinha plantada em Portugal na ordem dos 3%.

Esta descida é acompanhada a nível europeu por uma estratégia de redução da área de vinhas plantadas, em prol de mais qualidade, enquanto em outros continentes existe um aumento da área total de plantação.

A Europa produz cerca de 55% da produção total de vinhos mundiais, tendo Portugal 1% dessa produção, o que denota uma presença muito reduzida a nível do volume mundial de produção de vinho. Mesmo com o decréscimo de área de vinha plantada em Portugal, existiu por parte dos viticultores um trabalho salutar na última década, visível no rendimento das vinhas que representou um crescimento da produção de vinho de cerca de 8%, com Portugal como o único país europeu a registar este aumento. Um sinal positivo para os viticultores portugueses uma vez que o consumo mundial de vinhos continua a subir de forma sustentável. De destacar ainda que cerca de 70% da produção mundial de vinhos é feita somente de 30 castas diferentes, como podemos verificar na figura abaixo (Figura nº 5).

Após uma análise global, realço o “tesouro” ampelográfico existente em Portugal. A nossa história revela influências de diversos povos que ao longo da sua ocupação deixaram marcas. Atualmente existem em Portugal, 258 castas autóctones diferentes catalogadas e homologadas como castas portuguesas, o que faz de Portugal o produtor de vinhos a nível mundial com a maior diversidade de castas autóctones.

Esta diversidade é explicada pelo circunstância de a cultura portuguesa preservar as suas vinhas mais antigas, de pequenas dimensões, e cultivar diferentes castas na mesma vinha, contrariando a recente “corrente” da nova viticultura que se expressa através da plantação de longas e extensas vinhas de uma casta única.

As 258 castas portuguesas existentes podem ser interpretadas por algumas pessoas como um problema devido ao seu elevado número mas, a meu ver, representam antes um triunfo histórico que herdámos da nossa cultura secular do plantio da vinha. A nível mundial o trend de produção de vinhos está demasiado focado em 30 castas, ditas “castas internacionais”, representando na sua grande maioria castas de origem francesa, italiana e espanhola. O “tesouro” ampelográfico de Portugal permite distinguir, de imediato, os vinhos portugueses do resto do mundo por serem elaborados com castas autóctones adaptadas ao Terroir do país. Um dos fatores culturais que contribuiu para esta herança foi a tradição portuguesa de juntar diferentes castas - casamento de castas, corte ou blend - num só vinho. Na nossa cultura esta junção entre castas é natural, pelo que dificilmente conseguimos imaginar que Enólogos e profissionais de outros países a vejam como um trabalho difícil.

Esta foi uma das muitas lições que retive dos tempos em que vivi em outros países. Durante esse tempo fui muitas vezes surpreendido pelos comentários dos profissionais que conheci, quando afirmavam admirar os vinhos portugueses pela sua diferença a nível mundial. Também os comentários em relação aos profissionais portugueses me surpreenderam. Eram vistos como verdadeiros artistas porque detinham a capacidade e a “arte” de trabalhar com sete, oito ou mais castas num só vinho.

Como afirmou Matt Johnson, Enólogo na Dana Estate, Califórnia: “Associar oito castas para fazer um vinho ótimo e com essa associação melhorar as castas presentes é impossível em todo o mundo, apenas quem trabalhou vários anos em Portugal poderá alcançá-lo”.

Hoje em dia existe uma Rede Nacional da Seleção da Videira (RNSV) que tem como objetivo a preservação do património de biodiversidade de castas autóctones existentes. A sensibilização dos agentes a nível nacional na produção de vinho deverá pois passar pelo reconhecimento desta questão como inevitável para a valorização dos seus produtos. Uma valorização que se deve ainda ao facto de Portugal ser o primeiro país referido no que toca à diversidade dos mesmos vinhos, independentemente de representar apenas 1% do volume de vinhos produzidos a nível mundial. Existem mais castas no nosso país do que em todos os outros. Podemos pois facilmente deduzir que em muitas partes do mundo, as regiões são conhecidas por apenas uma ou duas castas, um fator de limitação e de especialização nessas mesmas castas. Para os portugueses é fácil compreender que os viticultores das diferentes regiões são uns especialistas na viticultura por possuírem a capacidade de saber trabalhar com a maior diversidade de castas autóctones presentes no país.

Perante isto é fundamental repensar a necessidade de preservar este “tesouro” ampelográfico, continuando a apostar no aumento da nossa produtividade de forma a responder a uma crescente procura mundial de vinhos diferenciados. Para já temos dois trunfos: a diversidade de castas autóctones e o know-how de produção de vinhos associando várias castas.

Um património deste valor merece ser bem gerido e preservado. O problema que eventualmente terá de se enfrentar é o da informação prestada ao consumidor no ato da aquisição de um vinho nacional. É primordial que a explicação da marca de qualidade impressa pela seleção milenar, feita no nosso território, seja bem comunicada e saiba cativar o consumidor.

Avanço agora um pouco da minha visão de como valorizar o Terroir de Portugal e passo a apresentar as minhas ideias e soluções para valorizar o conhecimento das nossas castas e vinhos, do Enoturismo e das novas tecnologias.

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