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Antecedendo o assunto

Terroir

Entendo por Terroir o conjunto de influências exercidas no processo de produção que irá determinar a qualidade do produto no momento da degustação. Assim, este conceito engloba o tipo de solo onde a vinha está plantada; as condições climatéricas a que a mesma esteve sujeita durante o ano; os trabalhos realizados pelas equipas de campo ao longo de todo o processo de transformação das uvas em vinho; as temperaturas a que o vinho esteve sujeito e o momento em que cada operação foi realizada no processo de produção. Existem várias interpretações e filosofias em torno deste conceito, mas é fácil perceber que, tal como a influência dos agentes climáticos está diretamente ligada à qualidade final do produto, também o está o trabalho de cada pessoa e a ligação que existe entre o espaço físico e a qualidade do seu produto. Esta descrição de espaço físico é um conceito de Terroir levado ao detalhe, segundo o exemplo da Borgonha, uma das regiões onde mais aprendi a nível de valorização do seu próprio saber fazer.

Esta região valoriza-se como uma região diferente de todas as outras no mundo por apresentar uma grande diversidade de terrenos fisicamente delimitados para proteger e separar o seu Terroir dos vizinhos. Entende-se por Clos (Figura nº 6), uma delimitação física por muros que encerram uma propriedade, permitindo a valorização desse terreno e de cada pé de vinha, devido à sua exclusividade.

A região da Borgonha apresenta pouca variedade de castas, sendo as mais conhecidas o Chardonnay Pinot Noir, contudo, a valorização de pequenos pedaços de terra, permitindo identificar a origem de cada vinho através da denominação de Clos, foi uma forma benéfica de interpretar o seu terroir e de lhe atribuir valor.

A mais recente surpresa que tive num evento de vinhos aconteceu durante a degustação de vinhos Açorianos, onde tive a oportunidade ,rara, de apreciar estes vinhos fantásticos, produzidos em condições de viticultura heroica (região nomeada Património Mundial da UNESCO). Nesta degustação o conceito de Terroir era expresso pelas diferentes características que diversas ilhas davam aos seus vinhos. Foi para mim surpreendente descobrir esta riqueza bem preservada e delimitada no meio do Oceano Atlântico.

É este o exemplo que eu procuro em Portugal, para demonstrar que existe riqueza nas vinhas do nosso país. Nesta prova de vinhos Açorianos degustei castas exclusivas destas ilhas, currais e deste terroir. Do mesmo modo os diferentes Terroir’s que deram lugar às nossas castas terão que ser bem demarcados, e a comunicação aos consumidores mundiais sobre esse local terá de clarificar o real valor do produto que estão a consumir.

Existe portanto um grande trabalho a ser desenvolvido na preservação e manutenção de todas as castas que herdámos. Devemos recuperar castas quase extintas e procurar reintroduzi-las na produção extensiva praticada na viticultura moderna e aperfeiçoar a sua qualidade. O passo mais importante pode ser dado quando existir uma estratégia de comunicação da diversidade das castas nacionais, e quando os profissionais estiverem preparados para ajudar o consumidor nacional e internacional a valorizar os vinhos Portugueses.

Embora o conceito de Terroir tenha origem em França, ele é transversal à produção de outros produtos agrícolas relacionando as qualidades dos mesmos às influências que sofreram durante o seu processo de produção. O exemplo que se segue refere o vinho, mas existem interpretações semelhantes para outros produtos agrícolas nacionais. “Temos um país abençoado, as nossas frutas são muito gostosas!”, assim referiu António Silvestre Ferreira numa palestra sobre o futuro das exportações dos produtos agrícolas de Portugal a 20 de novembro de 2013, em Évora.

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